Na casa onde nasci havia sons e cheiros meus,
As pessoas que os tinham, emprestavam-mos à memória
E eu incluía-os como amigos íntimos.
Nesta não tem gente,
Ou se tem, não têm cheiro nem som,
Porque eu não me lembro.
Gastei toda a memória nas pessoas antigas.
E o espaço para as novas é um T1,
Que fica muito para além do T
Onde eu estou sem visitas,
Fechado, à medida de não deixar entrar.
Preciso do que já foi como de um próximo ar,
Para me lembrar que foi bom.
Eu já fui bom.
Agora não sei, mas já fui!
Juro que fui!
E quero gastar as últimas energias a fazer manutenção às memórias
P’ra que nenhuma se perca!
Era pena...
É que até a gente que me fez por dentro como um cofre,
Já não existe...
E quero mantê-los ligados à máquina para sempre.
E a máquina sou eu.
E para sempre sou eu.
Anda, aconchega-te no mofo do T1!
Finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino.
Cheiras à minha avó,
À roupa no estendal,
À canção no fim dos bonecos,
Ao banho que está a ficar frio,
Ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair,
Tu cheiras, e sabes, ao dia em que a casa esteve para cair,
Que foi no mesmo dia em que resistiu!
Como se estivesse ali desde o início dos tempos!
Como se tivessem começado para eu os ACABAR ACABAR ACABAR!
Acaba comigo que me falha a lembrança...
E restas-me como uma folha que esteve para cair.
E que só não caiu,
Porque o mundo acabou antes do Outono.