Para onde vão os que têm o orgulho ferido?
Ontem segui o rasto de sangue, mas não havia nada, apenas uma parede de tijolo esburacada, coberta de graffiti insultuoso e negra, de servir de cinzeiro para todas aquelas passas.
Agora que penso nisso, talvez aquela parede seja para onde vão mesmo. Talvez aquilo seja na realidade uma cidade que não se consegue ver, só para os tristes e rejeitados, arrogantes e demasiado aguçados. Os que misturam LSD e água-ardente. Aqueles que enquanto andam, pensam no que vão comer, mas quando já comem não se lembram por onde andaram.
Junto à parede havia poças feitas por eles, lágrimas de raiva, deseperando os seus entraves. Cada gota que caía era como um sonho que se quebra na realidade. Puro e duro.
Um animal em ferimento tem um coração estrondoso e energia descomunal. A cada batimento ecoam terramotos, mas isso não chega para o levantar do chão molhado. Em vez disso mantem as mãos nos bolsos à espera que os rasgos curem, os hematomas desapareçam e a dor encontre um brinquedo novo. Que finalmente apareça uma mão divina que o erga.
Se calhar, se fixarem a parede tempo suficiente, aprendam a ignorar a sua condição humana, se apercebam do que não vem e deixem de sofrer por si sós. Quem sabe? Esperemos para ver.